Ao falar ao telefone hoje com o meu Vovô Adelino para desejar-lhe parabéns pelos seus 101 anos de vida, ele mencionou uma palavra que amo e que me deixa muito feliz: BATUTA. Essa palavra me remete às muitas das minhas lembranças de infância, na fazenda do meu tio Evilázio, cercada do carinho de meu querido e saudoso papai e coberta de carinhos de mamãe, de meus irmãos, de meus tios, primos e de meus queridos avós. Essa palavra BATUTA que sempre espero ouvir de Vovô em todos os momentos que nos encontramos é mágica e renovadora! A bendita palavra dita hoje me fez lembrar uma poesia que escrevi há exatamente um ano em comemoração de seus 100 aninhos de vida. Antes da poesia posta, contudo, quero deixar claro que Vovô é ocidental, mas vive como os orientais, em especial os da ilha de Okinawa. Isso porque ele é um conhecedor da beleza e da importância que há nas notas de uma sanfona melodiosa, da necessidade e dos benefícios de comer pouco e de quando se está com fome, da importância do álcool com uma taça de vinho apenas para comemorações, dos malefícios do alcoolismo, da necessidade dos ensinamentos provenientes da leitura de livros (o número da sua extensa lista de livros lidos está casa dos 300), da importância da caridade da benevolência e do amor sobre todas as coisas, da essência de saborear as coisas, do benefício de caminhar de uma ponta da rua à outra e do mal que faz a vida com stress. Vovô tem estilo moderno, mas vive como os okinawans. VOVÔ, obrigada pelos ensinamentos diários. Adoro o "resfolego" da sua sanfona. Espero que o senhor se sinta bem e feliz, como sempre, hoje aos 101 anos de vida. Seja forte, pois saúde o senhor tem para mais de 116. Essa é para comemorar os 101!!!
Meu avô fala/va avisos
por Aline Gomes Souza
Desde o dia em que 1913
trouxe o meu avô:
a velha porteira tornou-se ente,
a música passou a habitar a aflição das valsas,
e tudo passou a tirar a sorte.
Até periquitinhos verdes.
Quando nada fala/va,
só a sua sanfona,
meu avô fala/va avisos:
Tipo assim: "Agora vou tocar
Piquenique Trágico".
Meu avô toca/va doçuras
e dá/dava tratamento acústico
aos fenômenos dos desiludidos.
Entre uma valsa e outra,
momentos e saudades são/eram
banhados pelo chão de sons.
Entre um tango e o dedo,
no fim da nota, um outro aviso:
Tipo assim: "Agora vou tocar
Santa Terezinha".
E o instante também ouve/ouvia,
ali, pertinho das datas.
Quando os olhos do meu avô
encontram/encontravam uma linha no tempo, estórias tomam/tomavam fôlego e mais uma vez meu avô fala/va avisos:
Tipo assim:
"Certa época, lá na Ressaca, encontrei uma índia".
E é assim, desde 1913
Meu avô fala avisos
Tipo assim:
"BATUTA!!!"





